Eu estou tentando, e você?

Por Sílvia M. Rosa
Um oráculo moderno, sentado sobre uma bicicleta na esquina da Av. Paulista com a Pamplona, poderia lhe lançar a questão em uma tarde chuvosa e barulhenta da primavera brasileira: "Conte-me como está seu lixo e eu lhe contarei como será seu futuro".
Pois bem: como está seu lixo? Reciclagem para você é um assunto sério, importante e fundamental para o qual você nunca tem tempo? Deve ser. Muita gente se preocupa, entende a importância e a relevância do assunto mas não consegue sair das ideias para as ações.
Eu também sou assim. Mas posso dizer que tenho tentado me redimir de uma forma simples - mas que está custando uma atenção danada. Tenho tentando utilizar uma bolsa de compras reciclável e diminuir a utilização de sacolas plásticas.
Não sou eco-chiita. E é justamente por isso que decidi contar o que tem se passado nesses meses de tentativa de sair do mundo das ideias e entrar no mundo da ação. Afinal, não é bobagem dizer que nossos recursos naturais são findáveis, que estamos matando nossos rios e que não demora até que água potável custe mais caro do que combustível de avião.
Tenho 42 anos, portanto sou do tempo em que plástico ainda não era tão comum quanto hoje. Aliás, cabe dizer que nada tenho contra o plástico (nem ninguém deveria ter), pois ele é fundamental em uma porção de utilizações em nosso mundo (pense em seringas descartáveis, tubos e conexões para as casas etc). Mas tenho uma lembrança ainda viva de sacos de supermercado de papel, garrafas de vidro para xaropes, refrigerantes e leite entre tantas outras coisas. E essa constatação faz parte daquelas que viram piadas na internet: como sobrevivemos aos carros que não tinham air-bags, como fizemos negócios, soubemos de nascimentos e mortes sem os telefones celulares, como conhecemos o mundo sem a internet e a TV a cabo?
Enfim, a vida já foi muito mais simples e muito menos dependente de sacolinhas plásticas e garrafas pet. E a bem da verdade a gente nem se deu conta disso até perceber que o excesso estava sufocando a natureza que nos dá abrigo e nutrição.
Mas mudar de atitude não é fácil. Atitude aliás, é uma dessas palavras mal usadas e que acabam parecendo bobagem. Vamos dizer que é uma questão de mudar um padrão de comportamento. Coisa difícil que em casos extremos exige terapia. Esperemos que não seja caso para tanto. Pois bem, percebi que precisava fazer alguma coisa diante de uma situação ridícula na qual me encontrei há alguns meses e que agora, de coração aberto em fase de reciclagem eu divido com vocês.
Fui fazer uma limpeza na parte de cima de um guarda-roupa de minha casa. Local onde, dentro de três grandes sacolas de papel - daquelas usadas para trazer roupas de festa em enormes cabides - eu guardava outras tantas sacolas. 'Tantas' não é a palavra apropriada. Não sei o número exato, mas posso dizer (e juro que não estou aumentanto nada para fazer o texto ficar mais interessante) que eram centenas. Sacolas de papel, de plástico, de tnt, de supermercado, lojas, duty-free shopping, em tamanhos e formatos os mais variados. Comecei a retirar tudo aquilo e a ficar pasma comigo mesma. É bem verdade que desde criança sempre gostei de uma 'sacolinha', tinha a minha pequena de feira para sair com minha avó, carregava as de meus pais nas compras de Natal e ficava feliz com modelos, cores e padrões diferentes.
Mas naquele dia terrível, três coisas me ocorreram: que havia algo muito errado com meu comportamento e com a minha ligação com as coisas materiais, que eu estava gastando muito dinheiro possivelmente em bobagens e, por fim, que aquilo tudo teria um impacto absurdo no meio-ambiente e tudo por conta de uma só pessoa. Confesso que fiquei tão horrorizada comigo mesma que chamei minha faxineira e decidi que aquela coisa absurda teria um fim ali mesmo. Separamos as sacolas plásticas por tamanho, para que pudessem ser utilizadas no banheiro e na àrea de serviço. As maiores foram separadas e algumas foram guardadas. As centenas restantes foram divididas entre a faxineira e todos os porteiros do prédio (tive que pedir para o zelador vir retirar e fazer uma mea culpa por manter tudo aquilo em casa), acho que ele ri de mim até hoje.
Fiquei aliviada no mesmo momento, do excesso, da insustentável leveza do plástico, da certeza de ter finalmente iniciado um processo de renovação que não poderia (e nem deveria) parar ali. A outra ação foi a de pegar um belo e decorativo porta-bolsas que andava esquecido onde? dentro de uma sacolinha claro, e pendurá-lo bem ao lado da porta de entrada. Lá agora estão três simpáticas sacolas de compras de pano e tecido sintético lavável. Não tenho mais como fingir que não vi e portanto esqueci ao sair de casa e ir ao supermercado.
Ainda trago sacolinhas sim. Com os produtos gelados ou aqueles de limpeza que tem muito perfume. Mas trago menos. Tenho tentado deixar as sacolas do lixo do banheiro um pouco mais cheias antes de trocá-las (essa talvez seja a parte mais difícil) e estou pensando em como fazer para convencer o pessoal do prédio de que é necessário separar nosso lixo (até agora a única coisa feita é a reciclagem do óleo de cozinha, por iniciativa de outro morador consciente).
Para ser absolutamente honesta, tenho que confessar que não é fácil. Talvez seja por isso que tanta gente inteligente e consciente da necessidade de mudar o padrão, deixa sempre para mais tarde a primeira ação. Mas pessoal, sabe que vale a pena ver que dá para mudar um pouquinho? E depois disso o restante começa a parecer mais fácil. Consumir com consciência, gastar menos, ensinar o próximo.
Aliás, esse é meu próximo passo: meu presente de final de ano para minhas melhores amigas vai ser uma linda sacola de compras reutilizável. Já estão encomendadas e assim nenhuma delas terá mais a desculpa de não usar por não ter.
Tente você também, nossa mãe Terra merece esse carinho!
Silvia M. Rosa [personaldrinker@terra.com.br] Sommeliére e bartender, Sílvia já foi gerente de restaurante e jornalista de grandes empresas por quase 20 anos. Hoje é Repórter Especial da revista ADEGA e atende seus clientes e amigos na ’Personal Drinker’ empresa que se dedica a educação e ao entretenimento de pessoas que querem aprimorar seus conhecimentos de bebidas e alimentos.
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